domingo, 4 de novembro de 2012

Terra Nostra


Venezia

Acabo de voltar de uma viagem de 15 dias para a Itália com meu marido. Foram duas semanas intensas, descobrindo cada cantinho desse país maravilhoso e nos surpreendendo a cada dia. A Itália é tudo o que falam e mais um pouco. A arte está em todas as esquinas de Roma e Florença, as paisagens que parecem pinturas artísticas perambulam pelas estradinhas da Toscana, e Veneza, ahhh Veneza. O paraíso dos casais. Pare de gastar com sessões de terapia e vá correndo para uma temporada em Veneza!! Tudo parece mágico nessa cidade construída sob o Mar Adriático, patrimônio da humanidade, graças a Deus.

As belezas e a riqueza artística e cultural da Itália são inquestionáveis. É fascinante, como todo mundo que já foi comprova. O que também surpreendeu foi dar de cara com a quebra de alguns mitos, sobre gastronomia, simpatia e hábitos dos italianos.


É grande, mas tão pobrinha que eu quase dava conta de uma inteira

Eu comi muito menos do que imaginava. Ganhei quase dois kg, sim, mas porque a quantidade de carboidrato foi realmente fora do comum. A pizza não é boa. Aliás, é muito sem graça. Pra se ter uma ideia, num restaurante em Pienza (Toscana) ganhei uma tesoura pra cortar a pizza, de tão dura que era a massa. Recheio era objeto de desejo... Dava pra ver uns pontinhos de gorgonzola na minha pizza quattri formaggi. Ah, e a Marguerita não tem Manjericão, minha gente, só queijo (pouco, muito pouco) e molho. Uma amiga italiana ficou espantada quando eu disse que não gostei da pizza de lá. Ela explicou que eles valorizam o molho, a pizza boa é aquela que você sente intensamente o gosto do pomodoro. OK, ok, mas pra mim é a que eu sinto queijo, muuuuito queijo.

A decepção gastronônima não para por aí. Todo mundo vai pra Itália querendo comer muito macarrone. De fato, eu comi. Mas como massa é o primeiro prato deles a porção nos restaurantes era muuuuito menor da que estamos acostumados a comer aqui. Eu e meu marido ficávamos apostando quantos pennes viriam dessa vez. E o molho não era suculento, como nas cantinas brasileiras. Saímos muitas vezes dos restaurantes com fome. Não dava ($$$$) pra pedir sempre o segundo prato, que também não era aquelas coisas.

Por falar em $, a Itália surpreendeu muito pelos preços. Gastamos muito mais do que imaginávamos, mesmo sem abusos. Aí você percebe que a crise fez eles apostarem no setor turístico, um dos poucos mercados aquecidos no país. Comida, souvenirs, passeios são caríssimos, principalmente se convertermos para o real. Chegamos a pagar o equivalente a dez reais por uma latinha de coca cola. E um jantar simples, com massa (alguns pennes ou fuzzilis) e vinho da casa, não saía por menos de 25 euros.

Outra coisa que me marcou ao andar pelas ruas de Roma, Florença e das pequenas e charmosas cidades da Toscana é a falta de vaidade, principalmente das mulheres. Eu pensei que fosse encontrar um desfile de moda a cada esquina. Estamos no país da moda, minha gente! Não pensei que iria ver tantas mulheres descabeladas, de chinelo, e calças com estampas exageradamente coloridas. Mas percebi que essa coisa de moda fica muito concentrada em Milão. Passei algumas horas lá antes de ir para o aeroporto e já deu pra perceber que as pessoas caprichavam mais no look.

No fim percebi que vaidade não é tão importante assim pra eles. Eles valorizam outras coisas. A pouca vaidade é inversamente proporcional ao nível cultural dos italianos. Eles valorizam a história, a arte, são muito mais politizados do que nós. Em geral, em toda a Europa Ocidental. A impressão que tive é que eles investem mais tempo no “interno” do que no “externo”. E quem vai dizer que isso tá errado? “Isso é Itália, não América”, como disse pouco educadamente um senhor quando perguntamos se a loja dele aceitava cartão de crédito.

Com tanta cultura exalando pelas ruas, eu esperava pessoas mais educadas. Falo no sentido de dizer “me desculpe” e “obrigado”. Ficávamos com medo de pedir informação na rua! Dava a impressão que eles iam sair correndo atrás da gente com um rolo de macarrone. Eles, os italianos, são expansivos, grandes, falam alto mesmo e infelizmente não são as pessoas mais educadas do mundo. Até na França, que tem toda a fama, fui bem melhor recebida. Isso me deixou angustiada. Eles poderiam tratar um pouquinho melhor as pessoas que tão levando $ pra eles, certo? Só um pouquinho de esforço, poxa. Até em alguns hotéis o atendimento não era assim tão bom.


San Gimignano
Olhando todas essas coisas que escrevi, pode dar a impressão de que a viagem não foi lá essas coisas. Não, não, não!! Eu amei esse país e a nossa vontade era vender tudo no Brasil, comprar uma casinha no alto de uma colina e viver da forma simples que eles vivem por lá. Com menos vaidade e mais conteúdo. E tudo não passa de um olhar diferente para o estereótipo que eu mesma criei do país e de suas pessoas.

Temos uma Itália totalmente diferente no Brasil, em São Paulo especialmente. Não devemos viajar pensando que encontraremos as mesmas coisas por lá. Aqui, as massas são suculentas, os queijos transbordam no pedaço de pizza, os garçons e donos de restaurantes cantam tarantela, são alegres e nos tratam com educação. Essa é a Terra Nostra, a nossa Itália. Apenas diferente. E o bom é aproveitar o que cada uma delas tem de melhor.