sábado, 15 de agosto de 2009

A gente vai levando


Ontem fui tirar foto 3X4 para tirar o visto do México. Cheguei na lojinha, abri a porta, tinha um homem pegando suas fotos para passaporte. Enquanto esperava a minha vez, olhei ao meu redor e me chamou a atenção os porta-retratos antigos, empoeirados e pedindo pelo amor de deus para alguém levá-los para casa. Tinham filmes daquelas maquinas antigas pra vender também.

O moço me chamou pra tirar foto e eu disse: "Eu trouxe um pen drive e queria imprimir umas fotos, são poucas, umas 10 no máximo". Ele: Tudo bem, mas só segunda-feira. Eu: não, moço, mas eu preciso pra hoje. Pelo menos uma. Preciso muito pra hoje. Ele: nao dá, eu nao estou autorizado a ligar a maquina hoje. Eu: Por que? Ele: Porque eu só ligo uma vez por semana. Toda segunda. Menina, você é a primeira em meses que vem aqui para imprimir fotos. Ninguém mais imprime foto depois dessa tal de era digital. Acabou a emoção de esperar pela foto. Eu: É, imagino, eu só vou imprimir porque vim aqui pra tirar foto 3X4, aí aproveitei. Ele: Pois é, não sei até quanto tempo isso vai durar. Eu: Será que não tem nada que vocês poderiam fazer pra ganhar dinheiro aqui? Tanta gente ganha. Ele: não, isso aqui não tem mais jeito nao. Se meu patrão tivesse que pagar aluguel ja teria fechado há muito tempo. Eu: Mas o que vc faz o dia todo se não tem trabalho? Ele: Ah, dia ou outro entra um, entra outro. A gente vai levando.

domingo, 9 de agosto de 2009

Marcelo, Marmelo, Martelo

Quando eu era criança, minha irmã costumava ler pra mim um livro que eu adorava: Marcelo, Marmelo, Martelo. Pra quem não conhece, é a história de um menininho de uns seis anos que pergunta o porquê de tudo a todo mundo. (qualquer semelhança é mera coincidência). "Papai, por que a chuva cai?", "Mamãe, por que os pássaros voam?", "Por que eu me chamo Marcelo e não Martelo"?

A infância é a época dos por quês. Eu não consigo contar quantos porques o Luccas solta todos os dias. "Luccas, você vai fazer quantos aninhos?" Por que? "Luccas, quer fazer xixi"? Por que? É hilário! Pena que isso vai acabar. Acontece com todo mundo. Não sei por quê.

Por que os porquês vão diminuindo conforme ficamos mais velhos? A gente passa a se conformar com as frases prontas? Com o senso comum? Por que paramos de questionar?
O filme Vicky, Cristina, Barcelona (ver trailler abaixo) é um bom exemplo de quebra de paradigmas, de alguém que resolveu perguntar por que. Claro que é um exemplo extremo, que mexe com o conceito de família e questiona o formato que damos as nossas. Apenas vejo como um bom exemplo de alguém que não se sentiu confortável com o que veio pronto, enlatado e pré assado. Como o Marcelo, Marmelo, Martelo. Que não se cansa de perguntar por quê.

domingo, 2 de agosto de 2009

A arte de parir



Enchi uma grande amiga de porques hoje, quando fui conhecer seu segundo filhinho lindo de cinco meses. A Aninha resolveu ter o LA em um hospital público e por parto normal. Não foi uma decisão, mas uma convicção. Não combinaria com uma mulher que está prestes a se tornar mestre em ciências sociais - e que tem como projeto de pesquisa as mulheres negras encarceiradas de SP – ter seu segundo filho “num shopping center”, como ela mesmo se referiu às maternidades de classe média alta.

A Aninha disse que foi a melhor experiência da sua vida. Ela contou com detalhes. Dores, sentimentos, enfermeiros, pensamentos. Entre os porques, perguntei se tinham outras mulheres parindo junto com ela. “Não, mas poderiam ter”. Ela lembrou de uma mulher negra, gorda e alta que estava com o filho recém-nascido entre as pernas. Tinha acabado de nascer. A enfermeira pediu pra ela sentar e, com toda a pose, ela se põs de pé numa questão de segundos. A enfermeira: “Não, só pedi pra você sentar”.

A mulher negra deve estar acostumada a levantar rápido depois dos tropeços e tombos da vida. Como a Aninha, que demostrou coragem e sensatez ao escolher dar continuidade a sua profissão de mãe de uma forma mais natural. Afinal, existe algo mais natural e antigo no mundo dos homens do que dar à luz? Por que complicar?