domingo, 1 de novembro de 2009

Almoço dos Sentidos


Participei recentemente de um almoço muito especial. Voltando um pouquinho pra explicar o contexto. Na IBM, empresa onde trabalho, existe um programa muito sério de promoção interna da diversidade, com foco em quatro grupos: afrodescendentes, mulheres, pessoas com deficiência e GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). Objetivo: garantir que todos, independente do sexo, raça, opção sexual ou condição física tenham as mesmas oportunidades na empresa, e sejam respeitados da forma que são ou escolheram viver.

O Almoço dos Sentidos foi uma iniciativa do grupo de pessoas com deficiência. É um dia em que você almoça como se fosse cego. Resolvi me inscrever para participar e, sem dúvida, foi uma experiência fantástica. Cheguei ao restaurante e antes mesmo de olhar o cardápio do dia me vendaram. Tudo preto. Um amiga que trabalha comigo foi minha guia. Ela tinha que me orientar em tudo: a escolher do prato, ajuda para chegar à mesa, como usar o garfo e a faca sem enxergar, etc. Em poucos minutos, uma relação de confiança muito interessante se cria. Ela passa a ser meus olhos.

Escolhi arroz, salmão e batata frita. Sentei e comecei a comer. Tudo continuava preto. As pessoas que estavam na mesma mesa tentavam evitar que eu estraçalhasse o salmão. Sem sucesso. Uma coisa tão simples como cortar uma carne, pegar o arroz, virou um grande desafio. Acho que fiquei tão concentrada, que me calei. Elas perceberam isso. Eu costumo conversar bastante durante o almoço. Sou bem "faladeira" por sinal. Mas, além da dificuldade que eu estava tendo pra comer, não conseguia sentir a reação das pessoas quando eu fazia algum comentário, ou seja, parecia que eu estava sendo ignorada, excluída, que ninguém prestava muito a atenção no que eu falava. Isso me deixava ainda mais calada.

Eu ouvi mais do que de costume. Prestava atenção no que as pessoas diziam nas outras mesas. E ficava imaginando a cara da pessoa que estava falando aquilo. E pensava: qual a noção que uma pessoa que nasce cega tem de um ser humano? Ela consegue imaginar como é o pai, a mãe, o irmão? Sabe o que é azul, amarelo? O mar, meu Deus, ela não sabe o que é o mar. E quem vai conseguir explicar?

Depois de uns 40 minutos, terminamos o almoço. Continuei vendada até a saída do restaurante. Eu já estava me sentindo sufocada. Com vontade de arrancar aquele negócio dos meus olhos e voltar a ver o mundo. Até parecia que eu não tava conseguindo respirar direito. Que meus pés ficaram mais firmes no chão. E minha mão passou a ser a parte mais importante do meu corpo. Tiraram a venda. Meus olhos lacrimejaram. A luz me atrapalhou um pouco. Fiquei tonta. E me deu vontade de chorar. Talvez de felicidade, por ter sido só um momento de escuridão. Mas também por pensar que muitas pessoas não teriam a oportunidade de tirar a venda. E que continuariam sem saber o que é o mar.

2 comentários:

Bel disse...

Que loucura, né Van? Na próxima também quero sentir todas estas sensações... bjocas, Bel

Ana Luiza Biazeto disse...

É, minha amiga, vivenciar o diferente é um desafio e um caminho para valorizar os detalhes da vida. Adorei a ousadia da sua experiência.