quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Meu caro amigo

Qualquer música do Chico poderia ser um filme ou pelo menos um curta. É fácil se perder nas letras, ficar imaginando a banda passando, o cara que beijou sua mulher como se fosse a única, o que será que será que andam suspirando pelas alcovas, o que está no dia a dia das meretrizes. Sim, têm dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e leva o destino pra lá.

Não existe dia de trabalho tão pesado que não se acalme com a volta pra casa acompanhada de Chico. É leve, mas forte, parece até um cafuné na nossa cabeça.

Eu acho que os tratamentos de depressão deveriam ser com música. Cantando. E bem alto. Um professor disse esses dias que a gente não pode só escutar. Tem que falar. Só assim a mensagem fica consolidada no nosso subconsciente. Cante uma música boa, seja lá de quem for. Ivete, Padre Marcelo, Marisa, Balão Mágico. Double You. Cada um sabe a que te toca fundo.

Apesar de um grande número de músicos precisar de drogas para espantar seus males, continuo acreditando naquele velho ditado.

Viva o Chico!

sábado, 15 de agosto de 2009

A gente vai levando


Ontem fui tirar foto 3X4 para tirar o visto do México. Cheguei na lojinha, abri a porta, tinha um homem pegando suas fotos para passaporte. Enquanto esperava a minha vez, olhei ao meu redor e me chamou a atenção os porta-retratos antigos, empoeirados e pedindo pelo amor de deus para alguém levá-los para casa. Tinham filmes daquelas maquinas antigas pra vender também.

O moço me chamou pra tirar foto e eu disse: "Eu trouxe um pen drive e queria imprimir umas fotos, são poucas, umas 10 no máximo". Ele: Tudo bem, mas só segunda-feira. Eu: não, moço, mas eu preciso pra hoje. Pelo menos uma. Preciso muito pra hoje. Ele: nao dá, eu nao estou autorizado a ligar a maquina hoje. Eu: Por que? Ele: Porque eu só ligo uma vez por semana. Toda segunda. Menina, você é a primeira em meses que vem aqui para imprimir fotos. Ninguém mais imprime foto depois dessa tal de era digital. Acabou a emoção de esperar pela foto. Eu: É, imagino, eu só vou imprimir porque vim aqui pra tirar foto 3X4, aí aproveitei. Ele: Pois é, não sei até quanto tempo isso vai durar. Eu: Será que não tem nada que vocês poderiam fazer pra ganhar dinheiro aqui? Tanta gente ganha. Ele: não, isso aqui não tem mais jeito nao. Se meu patrão tivesse que pagar aluguel ja teria fechado há muito tempo. Eu: Mas o que vc faz o dia todo se não tem trabalho? Ele: Ah, dia ou outro entra um, entra outro. A gente vai levando.

domingo, 9 de agosto de 2009

Marcelo, Marmelo, Martelo

Quando eu era criança, minha irmã costumava ler pra mim um livro que eu adorava: Marcelo, Marmelo, Martelo. Pra quem não conhece, é a história de um menininho de uns seis anos que pergunta o porquê de tudo a todo mundo. (qualquer semelhança é mera coincidência). "Papai, por que a chuva cai?", "Mamãe, por que os pássaros voam?", "Por que eu me chamo Marcelo e não Martelo"?

A infância é a época dos por quês. Eu não consigo contar quantos porques o Luccas solta todos os dias. "Luccas, você vai fazer quantos aninhos?" Por que? "Luccas, quer fazer xixi"? Por que? É hilário! Pena que isso vai acabar. Acontece com todo mundo. Não sei por quê.

Por que os porquês vão diminuindo conforme ficamos mais velhos? A gente passa a se conformar com as frases prontas? Com o senso comum? Por que paramos de questionar?
O filme Vicky, Cristina, Barcelona (ver trailler abaixo) é um bom exemplo de quebra de paradigmas, de alguém que resolveu perguntar por que. Claro que é um exemplo extremo, que mexe com o conceito de família e questiona o formato que damos as nossas. Apenas vejo como um bom exemplo de alguém que não se sentiu confortável com o que veio pronto, enlatado e pré assado. Como o Marcelo, Marmelo, Martelo. Que não se cansa de perguntar por quê.

domingo, 2 de agosto de 2009

A arte de parir



Enchi uma grande amiga de porques hoje, quando fui conhecer seu segundo filhinho lindo de cinco meses. A Aninha resolveu ter o LA em um hospital público e por parto normal. Não foi uma decisão, mas uma convicção. Não combinaria com uma mulher que está prestes a se tornar mestre em ciências sociais - e que tem como projeto de pesquisa as mulheres negras encarceiradas de SP – ter seu segundo filho “num shopping center”, como ela mesmo se referiu às maternidades de classe média alta.

A Aninha disse que foi a melhor experiência da sua vida. Ela contou com detalhes. Dores, sentimentos, enfermeiros, pensamentos. Entre os porques, perguntei se tinham outras mulheres parindo junto com ela. “Não, mas poderiam ter”. Ela lembrou de uma mulher negra, gorda e alta que estava com o filho recém-nascido entre as pernas. Tinha acabado de nascer. A enfermeira pediu pra ela sentar e, com toda a pose, ela se põs de pé numa questão de segundos. A enfermeira: “Não, só pedi pra você sentar”.

A mulher negra deve estar acostumada a levantar rápido depois dos tropeços e tombos da vida. Como a Aninha, que demostrou coragem e sensatez ao escolher dar continuidade a sua profissão de mãe de uma forma mais natural. Afinal, existe algo mais natural e antigo no mundo dos homens do que dar à luz? Por que complicar?

domingo, 23 de novembro de 2008

Sobre a perda

Termino de ler o livro O Ano do Pensamento Mágico, de Jean Didion. Hoje também li uma entrevista da Paula Lavigne pra revista da Joyce Pascowitch. Algo em comum. Ambas relatam a Perda. A Perda de alguém que se ama e o nosso posicionamento em relação a ela. À morte. Toda perda de certa forma é uma morte. Não é preciso o coração de quem amamos parar de bater.

A Jean perdeu o marido, depois de 40 anos de convivência, em um dia comum, como todos. A Paula perdeu o Caetano para a vida. A Jean nunca mais vai ver o John (pelo menos não da forma que o conheceu). A Paula vai continuar convivendo com o Caetano, sem poder usufruir sua companhia. Sim, duas perdas. Duas mortes. Em um caso com os procedimentos de praxe que seguem a morte: velório, enterro, família reunida. No outro, não. Apenas uma pessoa de luto. Por alguém que vive.

Aí pensei. Seria bom se fosse como nos jogos. Quando alguém perde, alguém ganha. Ou no máximo empata. Sem grandes traumas.

Nesses dois casos não houve vencedor. Nem empatou.

domingo, 12 de outubro de 2008

A questão do diploma

A obrigatoriedade do diploma de jornalismo continua pautando os veículos voltados aos profissionais de comunicação. Nenhuma novidade, a mesmice de sempre. Toda vez que eu me deparo com uma notícia sobre a questão me coço para dizer o que eu penso sobre essa discussão. Dá vontade de gritar: vamos parar de discutir baboseiras e seguir direto ao que interessa. Tenho apenas três pontos.

- A informação não é propriedade de um indivíduo. Um diploma não compra uma informação. Em tempos de web 2.0 qualquer indivíduo pode ser o dono da notícia. Ele pode atuar tanto comunicador quando como produtor de um fato de interesse público. Chega. Não podemos ser ingênuos ao ponto de pensar que o dono da informação continua sendo o jornalista. Já foi, não é mais.

- Se o diploma de jornalista não fosse obrigatório, as faculdades de comunicação teriam que vender melhor o seu peixe para conquistar seus clientes. Isso implica em melhorar a qualidade do produto oferecido. Fim das aulinhas de técnicas de redação e mais discussão analítica sobre o engajamento das audiências nos veículos de comunicação? Sim, elas precisam inovar e criar um currículo rico. Chega de aulas medíocres, com professores mal preparados, acomodados e diplomados. Vamos colocar gente de "conteúdo" na liderança desses focas.

- A discussão da obrigatoriedade do diploma tem pouquíssima utilidade na prática. A grande mídia continuará contratando gente de qualidade, formada ou não. Os aproveitadores da não obrigatoriedade do diploma continuarão em seus jornaizinhos marketeiros e, claro, sem a mínima credibilidade. Jornalismo é sensibilidade, clareza e uma certa arte de seduzir e de apresentar várias visões sobre um determinado fato. "Técnicas" que nenhuma faculdade aprendeu a ensinar até agora.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Malandragem de primeira

Escuta essa. Sexta-feira passada eu estava voltando do trabalho e resolvi cortar caminho pela rua dos Trilhos, que estava aparentemente mais livre que a querida Radial Leste. Engatei primeira, segunda, terceira, quarta e.... o transito parou, para a minha "surpresa". Demorei quase 20 minutos para rodar menos de 500 metros. Mas o que está acontecendo?

Abre farol, fecha sinal. E nada de andar. Tudo bem que estou na rua da universidade são judas às 8 da noite numa sexta-feira. Aqueles bares lotados, estudantes nas calçadas bebendo, rindo, sem pressa para atravessar a rua. Cenário bem familiar para mim há cinco anos. Abre sinal, fecha farol. Buzinei. Louca pra chegar em casa, tomar um banho e relaxar. E nada do trânsito andar.

Uma música alta que não vem dos barezinhos da rua me chama a atenção. Um montinho de gente ocupando uma faixa da rua. Será que é briga? Cheguei mais perto. E claro, só podia ser isso. Candidato fazendo comíssio. Sim, ocupando a rua Taquari e tumultuando o transito. Pensei: "Vou anotar esse número para não votar". Abri o vidro e vi: 14800. Opa, esse cara não vai ter o meu voto.

Passou. Contei o episódio para o meu pai no mesmo dia. E pedi para ele não votar nesse tal de 14800. E prometi que ia escrever um email pro Heródoto contando tudo. Não deu tempo.

Esta semana peguei os últimos minutos do horário eleitoral enquanto esperava para começar a favorita. Tomas, o Tomate. Vote em mim. Cabra Bom, Vote em mim. Aquela palhaçada que dispensa comentários. De repente, para a minha surpresa e indignação aparece o candidato 14800. Não, eu não posso acreditar. Claro, só podia ser ele fazendo aquela bagunça na rua, atrapalhando o transito, tumultuando. O candidado 14800 é o Sergio Mallandro.

Agora me diga: como um ser que deseja fazer algo pela cidade começa a fazer errado em plena campanha? Que substima a inteligencia do povo? Fez filme com a Xuxa, abriu a porta dos desesperados, pegou as malandrinhas e agora resolveu ser vereador. "Ah, deu tudo errado. Vou tentar ganhar dinheiro de outra forma." É inacreditável a cara de pau do indivíduo. Mallandro com dois eles.